Bem vindos, 30 anos.

Pausa nas viagens para compartilhar com vocês um ciclo desafiador da minha jornada.

O último ano foi inesquecível, meu casamento, diversas viagens, alguns problemas, mas nada de fato preocupante. Em contrapartida, vi amigos perderem seus pais, vi o sofrimento, a angústia, a revolta, o medo. Quando eu pensava em reclamar, eles vinham à minha mente e imediatamente eu me dava conta que eu não tinha problemas de verdade. A gente nem se dá conta mas quase tudo está em nossas mãos, mudar de trabalho, terminar um relacionamento, se afastar de quem não faz bem ou procurar quem sentimos falta. Dá para reclamar menos e viver mais, e era assim que eu direcionava minha vida.

2018 começou e com ele chegavam os meus 30 anos. Inevitavelmente uma fase mais reflexiva, principalmente pela minha vontade, mas pouca coragem, de ser mãe. Essa decisão marcava o encerramento dos 20 e poucos anos, um ciclo maravilhoso onde errei, mas vivi, aprendi, mudei. Eu sempre dizia pra mim mesma o quanto amava minha vida, quem eu havia me tornado e aonde eu estava. Eu me enxergava como uma pessoa de bem com a vida, segura e feliz. Mas aos poucos descobri que na verdade era fácil e cômodo esbanjar positividade e bom humor quando estava tudo bem.

A vida não flui sempre no sentido que planejamos e foi aí que me deparei com o maior desafio da minha vida: ser positiva quando tudo realmente não está bem, quando eu tenho um motivo de verdade. Falo de um momento que deve ter marcado a vida de várias pessoas, como marcou a minha. Aquele momento quando estamos fazendo uma coisa comum do nosso dia a dia, da nossa rotina, um dia qualquer, mais um dia. Aquele momento quando você recebe uma notícia que muda sua vida no mesmo instante. Ninguém se prepara para isso, ou a gente pensa que esses problemas só acontecem com os outros ou que estão sempre distantes do agora. Comecei o ano com a notícia que meu pai tinha um tumor no estômago e até agora não consigo descrever a sensação de receber uma notícia dessa. Meu pai, o melhor pai desde sempre, meu melhor amigo, minha referência de positivismo, meu parceiro, meu companheiro de trabalho no dia a dia. Aos poucos a notícia ia se encaixando em nossa nova rotina com consultas, artigos, pesquisas e uma infinidade de exames. Foi um desafio desde o primeiro dia, quando me vi decifrando palavras que nunca precisei entender…tumor, metástase, gastrectomia, quimio, radioterapia. Com isso também vieram os questionamentos da cura, se a vida seria normal, os efeitos do tratamento, etc. De um dia para o outro, você começa a buscar amigos, conhecidos, médicos, qualquer referência ou indicação que te traga uma resposta, uma luz, um rumo, um caminho para entender melhor tudo isso. O câncer é uma doença que, apesar de tão comum atualmente, sempre está ligada à morte para todos que você conta. Ninguém sabe bem o que te falar, alguns ficam calados, outros falam que tudo vai dar certo e os piores contam os exemplos ruins que já viram.

No meio desse turbilhão de exames e consultas, e na terceira sessão de quimioterapia dele, recebi a notícia que estava grávida de 5 semanas.  Fiquei muito emocionada, mas não sabia muito bem como reagir a tantas emoções de uma vez só, era medo, fé, alegria, insegurança, ansiedade, tristeza…tudo ao mesmo tempo. O temido e interminável primeiro trimestre, o ultrassom para ouvir o coração do bebê e a pior angústia de todas: sofrer um aborto. Os dias não passavam, as 12 semanas pareciam não chegar nunca. Foram dias infinitos, mas finalmente ouvi o coraçãozinho da bebê e o exame morfológico dizia que tudo ia bem na minha gravidez. Essa foi de longe, a melhor notícia e sensação dos últimos tempos.

Hoje, depois de 6 meses do primeiro exame, meu pai já passou por quatro quimioterapias (as quais reagiu muito bem) e realizou a gastrectomia há 40 dias, onde tirou todo o estômago e uma pequena porção do esôfago. Nunca imaginei que seria possível alguém viver sem o estômago e nunca pensei que eu precisaria entender uma cirurgia dessas. Foi difícil aceitar que meu pai, super ativo e saudável, teria que passar por tudo isso, mas agora eu respiro aliviada pois tudo deu certo! Sem sinais de metástase, sucesso absoluto na cirurgia e na recuperação, apenas concluindo o protocolo das 4 quimioterapias pós retirada do tumor. Uma jornada que transformou dias em semanas, mas que está chegando ao fim e com um final feliz.

Esse não é um texto incrível para dizer que encontrei o equilíbrio e agora estou plenamente feliz com a chegada dos 30 anos. Nos dias bons e principalmente nos dias ruins, me inspiro nas coisas simples do dia a dia e nas pequenas alegrias. Uma coisa eu posso dizer que já aprendi: os ciclos bons e ruins passam, mas eu nunca mais serei a mesma e de várias formas isso já me transforma profundamente todos os dias. Meu olhar sobre a vida, a indiferença com problemas tão pequenos e o valor de quem faz questão de estar presente, ouvindo um desabafo, mandando uma mensagem positiva ou um simples bom dia. E é nesses “crashs” da vida que a gente desperta, cai, levanta, cresce, enxerga tudo de uma maneira totalmente diferente. É a vida adulta batendo na minha porta com todos os problemas, emoções e dificuldades, mas também com o despertar de uma nova consciência onde devo aprender a ser positiva e estar feliz, mesmo quando nem tudo está perfeitamente bem. Sigo no objetivo de uma vida tranquila, leve e feliz, mas agora com mais consciência e maturidade para aproveitar os grandes momentos, contemplar a saúde, valorizar as amizades, admirar belas paisagens, amar profundamente, sorrir por pouco e viver como nunca.

 

Obrigada pela leitura!

Fernanda.

4 comentários Adicione o seu
  1. Amiga, não esperava nada diferente de você! Sempre tão forte e com as rédeas da sua vida firmes em sua mão! Esta menininha que vai chegar já tem muita sorte em ter você como mãe. Keep going! Estou assistindo orgulhosíssima de você. Um beijo enorme!

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